A vida é curta

A vida é curta. Curta, mas impiedosamente lenta, e terrivelmente demorada para os corações inquietos. Meu corpo está oco, sinto uma bolha de ar preenchendo minha caixa torácica, e de certo um peso incalculável nas pálpebras exaustas da mesmice que vejo em meu futuro. Sofro. Estou embaixo da escada, escondida, feito uma criança mimada, encolhida e sufocada, ofegante e molhada de suor gelado. Morrendo de medo. Feito uma criatura com pavor de uma possível surra. Mas não sou criança, e certas vezes lamento isso, com nostalgia e pesar. Contraio meus músculos e seguro minhas pernas, em posição de feto, com pavor da vida, que me promete muito, mas me mostra tão pouco.
Sou feita de cascas, como uma cebola. A começar pelo cabelo cor de mel, levemente vermelho, com luzes aloiradas, que destacam meu rosto e que combina estrategicamente com meus óculos da marca Chanel – brilhante nas laterais, porém discreto e elegante – que me deixam com um ar misterioso e intelectual, criando uma película entre mim e o mundo exterior, e aos meus opostos. Me escondo atrás de livros – carrego-os na bolsa ou debaixo do braço - , aparentando superioridade. Faço questão de me maquiar todas as manhãs, para esconder o rosto pálido que habito, para corar minhas bochechas pálidas e principalmente – para disfarçar minhas olheiras roxas e profundas.
Por alguns instantes pareço leve e divertida, depende do como acordo. O tempo também interfere meu humor. O verão se aproxima, e quando penso no bafo quente que o vento soprará com a elevação brusca das temperaturas, meus pêlos se arrepiam, e tenho vontade de hibernar feito uma ursa, ou quem sabe acordar apenas ao entardecer, para não assistir ao espetáculo lindo e pavoroso dos raios de sol.
Odeio tudo que o calor traz consigo. Não suporto o suadouro, o escorrer da minha maquiagem, os raios brilhantes penetrando minha palidez, queimando minha pele e esquentando a minha cabeça. Odeio, porque todos me olham como se eu fosse o fantasma da ópera. Sou apontada como criminosa por não gostar de verão, não largar nunca minhas calças jeans e abominar a moda ridícula que o verão impõe nos seres torrados. Por mim eu mudaria para o Alasca, sem pensar duas vezes. Eu fecho a janela na cara do Sol, e também da vida. Cerro as portas, tranco meu interior com cadeados, que só são abertos através da escrita.
Não tenho medo de escancarar minhas dores para o mundo. Tenho medo de coisas piores. Tenho medo de mim. Não sinto vergonha do sofrimento, e tão pouco a perturbação latente que me causa frios glaciais na boca do estômago, esse meu órgão sensível que sobrevive aos trancos e barrancos, constantemente irritado e machucado, consumido pelo suco gástrico - que é potencializado pela minha inquietação – e pedindo ajuda, clamando para calmaria dos meus pensamentos negativos e medrosos.
Tenho medo da vida, verdade seja dita. Tenho medo de quebrar a cara, de nada dar certo, de não ser feliz, de não ser nunca plena. Me sinto sempre tão rasa e só. Quero rir o riso verdadeiro, sentir alegrias constantes, me apaixonar pelo novo e abraçar o mundo com as mãos. Não quero mais sentir os pesares do pensar, e nem absorver somente o lado áspero da minha existência. Não quero mais ter que sofrer por ser como sou. Não quero mais ser cebola. Quero ser um legume inteiro, consistente. Quero deixar de ser oca. Quero crescer.
Metade de mim parece ainda um recém-nascido. Sou manhosinha, luto contra o sono, tenho medo da noite e preciso sempre da mamãe perto de mim. E do papai também. Brigo com meu priminho de 10 anos como se tivéssemos a mesma idade – sempre tenho que dar a última resposta na discussão – e insisto em perturbar meu irmão, fazendo piadas e caçoando dele, pobrezinho, e ele fica em silêncio, mirando meu prazer em difamar e caçoar das imperfeições dos outros, mudo, pois sabe que de nada vale reagir.
Além de medrosa, nasci cansada. Segundo minha mãe - que um dia será canonizada por ter me parido e suportado por toda vida - nasci inerte, arroxeada e preguiçosa. Ainda muito frágil, me acomodei no látex impessoal das mãos do obstetra que me trouxe ao mundo, e que por segundos pensou que eu estivesse morta. Nasci dormindo para a vida. Não chorei. Precisei levar uns tapas no meu bumbum ainda encharcado pelo líquido que me envolvia e protegia na barriga aconchegante de minha genitora. Ao ouvir meus berros todos puderam ver que sim, eu estava viva – viva, medrosa e sonolenta.
Pois acho que desde meus primeiros instantes até agora, 21 anos depois, continuo assim. Precisando tomar tapas na bunda para acordar, porque se eu pudesse, dormiria o dia todo, me levantaria somente á luz da lua. Preciso tomar tapas pra ver a beleza que existe através das vendas da minha desilusão e falta de crença nas coisas, nos outros e principalmente em mim. Tenho que parar de achar que só o azar me acompanha e principalmente arrancar o desdém que carrego no olhar – e esse desdém é de mim mesma, por me achar medíocre e impotente – não sou ninguém sem um bom empurrão nas costas.
Escrito por Marcella Prado Santos, 29 de novembro de 2011